A juventude perdida da América Latina

45% dos jovens iberoamericanos entre 15 e 24 anos não têm trabalho. A falta de apoio público e o alto trabalho informal travam a ascensão social.

A reportagem é de Verónica Calderón e está publicada no jornal El País, 13-08-2010. A tradução é do Cepat.

O rosto da América Latina é jovem. 19,5% de sua população tem entre 15 e 24 anos, um índice superado apenas pela África (20,3%), e é a única região do mundo cuja juventude experimenta um crescimento continuado. Mas seu panorama não é animador. Na Iberoamérica (América Latina, Espanha e Portugal) há cerca de 150 milhões de jovens, 45% dos quais – cerca de 68 milhões – estão desempregados, segundo um estudo da Organização Iberoamericana da Juventude (OIJ). Cerca de 105 milhões estão na América Latina. “Os jovens são invisíveis para a sociedade”, assegura o chileno Eugenio Ravinet, presidente da OIJ. “Salvo exceções, não existem políticas sociais dirigidas especificamente a eles”.

Tanto é assim que é difícil encontrar o critério utilizado para definir quem é jovem. Para a OIJ, são as pessoas de entre 18 e 29 anos. Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a ONU, a faixa está entre os 15 e os 24 anos. 90% dos jovens do mundo vivem em países em desenvolvimento, indica o relatório da OIT. “O jovem está desprotegido das políticas sociais. O primeiro suspeito de um crime costuma ser o jovem. A empresa que vai contratar desconfia antes de um jovem. A taxa de desemprego entre os jovens é o dobro ou, em alguns casos, o triplo da média nacional e nenhum país fez uma reforma trabalhista que levasse isso em conta”, descreve Ravinet.

Um estudo elaborado em 2007 pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e a OIJ detalha as taxas de desemprego em cada país latino-americano, mas matiza que as estatísticas variam de acordo com o ano em questão (uma margem de até cinco anos) e que os números são enganosos. A região tem um dos índices de trabalho informal mais altos entre os jovens. As economias latino-americanas, sem a proteção social dos países europeus, deixam seus jovens “sem a oportunidade de sair de sua situação”, destaca Ravinet.

A OIT detalha que, no México, Colômbia, Equador, Panamá e Peru, 82,4% dos adolescentes (entre 15 e 19 anos) tinham um trabalho informal, um número significativamente mais alto que os 50,3% dos adultos (entre 30 e 64 anos) na mesma situação de trabalho. “Os jovens são o setor mais vulnerável aos trabalhos irregulares, com o salário mais castigado”, comenta Ravinet. E a falta de oportunidades é diretamente proporcional à pobreza. O desemprego entre a população jovem pobre é 19% maior que nas classes média e alta.

Para as mulheres a situação é ainda mais difícil. O desemprego entre a população feminina é, em alguns casos, até 10% superior ao dos homens. A América Latina, além disso, é a única região do mundo onde a taxa de fecundidade entre as adolescentes continuou aumentando durante os últimos 30 anos. 7,3% das gravidezes na região acontecem em jovens de entre 15 e 19 anos. Na Europa, são 2,8% e em todo o mundo, 4,8%. “O machismo na região afeta particularmente as mulheres”, comenta Ravinet.

Outro dado alarmante é a quantidade de jovens latino-americanos que não estudam nem trabalham: um de cada quatro, segundo o relatório da OIJ e da CEPAL. “As consequências de uma juventude sem oportunidades são muito graves”, assevera Ravinet. O estudo divulgado pela OIT não destoa. “A incapacidade para encontrar emprego cria uma sensação de impotência e inação entre os jovens que pode levar a um aumento da delinquência, dos problemas de saúde mental, da violência, dos conflitos e do consumo de drogas”, adverte o relatório.

O maior problema, assevera Ravinet, é o ceticismo em relação à juventude. “Acredita-se que os jovens não se interessam pelo seu futuro, que são apáticos, que não desejam envolver-se nas decisões e isso é mentira. O desejo de um jovem é muito simples: ter um emprego e que seu Governo não o abandone. São urgentes programas que fomentem a capacitação e o contato com as novas tecnologias. Para entender a juventude não basta organizar um jogo de futebol ou um concerto de rock”.

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