Campanha Nacional contra a Violência e o Extermínio de Jovens

“ A história é tempo de possibilidade

 e não de determinismo”

Paulo Freire

 

A campanha nacional contra a violência e o extermínio de jovens é uma ação proposta pelas pastorais da juventude do Brasil, a fim de promover uma cultura de paz em defesa da vida das juventudes, lançada no ano passado no encontro Nacional de Fé e Política, encontro este que agrega diversos atores políticos e líderes das organizações do cristianismo no Brasil.  

 

A demanda emerge da realidade do universo social que localiza o jovem como principal alvo de violência no Brasil. Sendo que, pretende agregar os setores do governo e da sociedade civil para pautar as discussões sobre a pluralidade desta juventude, entendida não somente pela faixa etária, mas a partir de vários símbolos, estereótipos e expressões que variam com o tempo, com as formas de interação e com o espaço, e principalmente validar a defesa de que o jovem não é tão somente promotor de violência, mas que, sobretudo é um passivo deste processo.

 

A violência deve ser assumida como um problema de todos/as, pois é manifestada principalmente a partir da ausência de diálogos, sendo assim, os espaços institucionais como a família, a escola, e outros, devem repensar as suas práticas sociais para findar com a promoção e difusão de suas manifestações, seja verbal, física, psíquica ou simbólica. Lembrando de que a violência surge justamente a partir da incapacidade de aceitar o posicionamento de outrem.

 

Para muitos/as a única linguagem que é conhecida é a violência. Portanto, partindo dessa afirmativa, constatada nos processos educativos, precisamos enfrentar e não cooperar com as ações de humilhação (chacotas, piadinhas, preconceito, discriminação, violência física, etc;), pois com a presença destes aspectos, todos perdem ninguém é ganhador.

 

Para isso, é importante se reconhecer neste processo, e a partir deste avanço de reconhecimento, é necessário agir novamente alterando as ocorrências advindas da própria autonomia (liberdade de escolha), na qual, somente cada sujeito é que poderá identificar.

 

Quando trabalhamos no âmbito deste público, o que se pauta é justamente a idéia de que os jovens consigam exercer o direito de expressão e de serem ouvidos. Com isso, saem do anonimato simbólico e passam a exercer um papel ativo na sociedade. Além disso, a rebeldia que antes era taxada como pejorativa, ganha um status de desabafo desta juventude, e com isso passamos a indagar: Com as manifestações de atos rebeldes, o que esta juventude quer comunicar?

 

O adulto neste processo é uma referência ao jovem, uma vez que possui uma vivência em tempo maior. O que é válido ressaltar nesta interação, é justamente a necessidade de não haver uma disputa de forças, mas um diálogo, onde ambas as partes, os contextos, os tempos e desejos devem ser considerados, mesmo aqueles que não sejam sadios ou quistos. O que se deseja é justamente a promoção de um amadurecimento e confronto de idéias.

 

A cultura de paz não se instala momentaneamente, e com isso é necessário uma implicação contínua. Afinal, como devemos enfrentar a violência? Enfrentar quem? Como?

 

É válido lembrar que a violência não é natural, ou seja, não nascemos com ela, contudo, as relações de interação com o mundo e com os outros sujeitos é que determina e instala tal dimensão.

 

Se combatermos o agressor, em vez de combatermos a agressão, perdemos a oportunidade de estabelecer uma nova relação com o outro. [1] Portanto, além de percebermos as diversas dinâmicas da violência, devemos pensar esta dimensão a partir de ângulos diferentes, mais amplos e mais críticos. Por exemplo: pensar numa ação de um maníaco ou num estuprador e seu ato de agressão/violência é pensar também nos aspectos deste sujeito “enquanto humano” e não simplesmente criminalizá-lo ou devolver em forma de violência (ou até mais violenta) os seus atos. È pensar complexamente quais as lacunas do seu processo de formação, processo afetivo, processo ético, que muita das vezes é seqüenciado de frustrações e também de agressões, ou até mesmo de negações. Portanto, pensar em condenar somente o agressor de um ato é reduzir a cena da opressão. Por isso, é necessário pensar qual o suporte de tal cena, tais como: o impacto da herança da pobreza social na sua vida; a ausência de políticas de promoção; as regularidades e disciplinas do cotidiano; para que a partir daí, sim, o ato seja compreendido em sua conjuntura.

 

Paulo Freire em pedagogia da autonomia enuncia que precisamos nos reconher enquanto sujeitos condicionados, mas não determinados. Ou seja, reconhecer que a história é tempo de possibilidade e não de determinismo. Reconhecer de que somos seres inacabados e incompletos e que precisamos uns dos outros para termos plenitude.

 

A periferia por sua vez é sinal presente da herança da pobreza no Brasil, e sua identidade cada vez mais é negada e rotulada. Sendo assim, quando a periferia é negada pela sua identidade, marcada principalmente pela ausência de garantia de direitos, logo estes aspectos são incorporados aos seus sujeitos, que não conseguem inclusive um emprego por oferecer risco à sociedade, determinismo este advindo do seu território de moradia.  Que sociedade é esta? Este sujeito não faz parte da mesma sociedade? escolheu morar ali? E a mídia que hoje é uma das principais formadoras de opinião reforça este lugar, o criminalizando cada vez mais e afirmando este lugar sempre às margens, proliferando a invisibilidade dos potenciais, das lutas, das conquistas, das formas de resistência etc; que apresentam um outro lugar diferente do que é trazido pela TV.

 

Uma das chaves para a superação destes problemas sociais, é justamente se apropriar das capacidades e potencialidades de determinada comunidade. Portanto, por que não aparecem estes aspectos na mídia? Comprometeria o sistema que está posto?

 

Da mesma maneira, a rebeldia juvenil, propícia por sinal, também é apresentada por sua forma pejorativa, que logo é incorporada pelo senso comum, e que muita das vezes repetimos sem ao menos perceber, pois se torna natural. Com isso, as posturas da juventude ficam restritas a um recorte que se apresenta com mais intensidade, e uma outra parcela desta juventude, ou talvez a maioria, se quer, é pautada.

 

Por isso, pautar as discussões sobre a rebeldia (resposta/expressão a cerca do processo de interação), é incorporar aspectos que interessam e interferem na vida de todos nós, como por exemplo, as indagações: como uma juventude pode sentir prazer e vontade de estudar nas estruturas e nas motivações que se encontram nas redes de ensino? Como um jovem pode desabafar sobre seus desejos e sonhos, se a mídia de grande massa já determina que essa juventude só deseja droga, sexo e rock rool? Como valorizar o comunitário, se o sistema financeiro e produtivo que se encontra é um sistema que quer a individualidade (uma TV, um telefone, um computador para cada um, etc;), como questionar uma mídia que é inquestionável?

 

 Portanto, pensar no sujeito jovem não é simplesmente pensar numa faixa etária, mas numa série de aspectos que são determinantes para o nosso presente e para o nosso futuro. E é válido relembrar que o futuro não é responsabilidade somente dos jovens e das crianças, mas se dará a partir das nossas ações do presente, por isso é responsabilidade de todos nós.

 

Pensar em políticas públicas voltadas para a juventude, ou numa campanha contra o extermínio, é pensar num diálogo horizontal entre governo e sociedade civil, para que juntos/as asseguremos minimamente os direitos básicos para a sobrevivência, como a educação, o trabalho, a alimentação, a moradia, etc; e principalmente dizer um basta para as lacunas sociais que contribuem para a desestruturação familiar, para uma ausência de espaços para interação, sociabilidade e amadurecimento de idéias. Além disso, espaços que defendam a vida e que promovam a formação humana.  

 

Basta! Chega de violência e extermínio de jovens!

 

Sebastião Everton de Oliveira

21/06/2010

 



[1] DISKIN, Lia; ROINSMAN, Laura Gorresio: Subsídio – Paz como se faz – UNESCO 2002.

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