Nova Trindade: busca, fé e questionamento

Solange dos Santos Rodrigues[1]

    Como jovens de hoje se relacionam com a religião? A juventude está de fato mais afastada das religiões na atualidade? Que processos conduzem à adesão ou à desfiliação religiosa dos jovens? As diversas opções presentes no universo religioso brasileiro atraem a juventude? Que estratégias as instituições religiosas acionam para atrair e congregar os jovens? Quais são as crenças e práticas religiosas da juventude contemporânea?  Quais as conseqüências sociais e políticas de sua experiência mística? É possível combinar liberdade de pensamento e de expressão, questionamento, atitudes que costumam ser associadas à juventude, com o rigor exigido pelas religiões e com suas certezas absolutas? Como os jovens deste início de século assumem e reelaboram significados, rituais e princípios oferecidos pelos diferentes sistemas religiosos?

Cada uma dessas questões mereceria uma discussão profunda e poderia ser objeto de um artigo específico. Aqui aponto alguns aspectos gerais dessa problemática sociológica. Nunca é demais lembrar que Marx, Weber e Durkheim de algum modo analisaram as relações recíprocas entre religião e sociedade. Mas voltemos às nossas perguntas iniciais. Elas não admitem respostas apressadas e absolutas, tanto pela diversidade que atravessa a juventude brasileira atual, quanto pela dinâmica que vem imprimindo profundas transformações no campo religioso do Brasil nas últimas décadas.

     Já se tornou corrente o uso do termo “juventudes”, no plural, para reconhecer diferenças e desigualdades que marcam a experiência social dos jovens, com relação a gênero, cor de pele/etnia, classe social, orientação sexual, escolaridade, local de moradia (campo/cidade, centro/periferia), situação familiar, inserção no mundo do trabalho, diferenças de gostos e estilos, adesão a grupos culturais, políticos. Também com relação à religião os jovens se diferenciam.

 Por outro lado, ao longo de século XX o catolicismo perdeu o monopólio religioso no País: se 99% da população se declarava católica em 1890, no censo de 2000 este índice caiu para de 73,6%. Mais do que uma simples redução quantitativa, o que chama a atenção é o pluralismo que se estabeleceu: um número expressivo de Igrejas Evangélicas, tanto as herdeiras da Reforma Protestante, quanto as Pentecostais, criadas mais recentemente; Religiões Mediúnicas, como o Espiritismo Kardecista e as Religiões Afro-brasileiras; Religiões Orientais; novas religiões (como o Santo Daime) ou antigas, como o Islã, além de diferentes espiritualidades que não conformam instituições religiosas, referidas ao universo do que se costuma denominar de Nova Era. E é preciso lembrar, ainda, das diferentes maneiras como os adeptos se relacionam com uma determinada religião e a presença de distintas correntes espirituais numa mesma tradição religiosa.

 Portanto, estamos diante de dois campos bastante complexos, diferenciados internamente, juventude e religião, que estabelecem entre si as mais diversas formas de relacionamento.

 Frente a tanta diversidade, as análises sobre esse tema em geral se restringem a um determinado segmento da juventude (como jovens estudantes de uma determinada universidade ou de uma região da cidade) ou a uma religião específica (jovens do candomblé ou de uma denominação pentecostal). Esses estudos bem delimitados têm o mérito de considerar as especificidades dos sistemas religiosos e de não abordar a juventude como uma categoria social homogênea. Entretanto, eles não permitem generalizações sobre juventude e religião, muito embora levantem questões que podem ser investigadas em outros universos e que têm influenciado pesquisas mais amplas sobre juventude no País (veja quadros Uma juventude sem religião? e Particularidades cariocas).

 Uma dessas investigações foi feita com uma amostra representativa de 800 jovens, no município do Rio de Janeiro. Neste trabalho, realizado pelas antropólogas Regina Novaes e Cecília Mello entre os anos de 2000 e 2001 foram feitas constatações significativas (veja quadro Para saber mais).

            Outra pesquisa sobre Juventude Brasileira e Democracia[2], realizada em 2004 com 8 mil jovens, em 8 regiões metropolitanas brasileiras, chegou a resultados semelhantes aos dos quadros apresentados neste artigo no que diz respeito ao perfil religioso: 54,9% se identificaram como católicos; 21,4% como evangélicos; 2,8% como espíritas e outras opções (religiões orientais, afro-brasileiras, judaica) tiveram percentuais menores que 1%. Apenas 2% dos jovens declararam que não acreditam em Deus, e 14,3% disseram que crêem em Deus, mas não têm religião. Assim, o terceiro maior grupo é constituído por jovens sem religião, mas com crenças. Nesta pesquisa chamou atenção o fato de que 28,5% dos jovens participavam de grupos, espaços privilegiados de sociabilidade juvenil. E em torno do quê se reúnem esses grupos? Atividades religiosas (42,5%), esportivas (32,5%) e artísticas – música, dança e teatro (26,9%) foram as mais citadas[3].

                Mais uma pesquisa sobre a religiosidade dos universitários da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo realizada no ano de 2000[4] reforça as indicações trazidas até aqui: 68 afirmações foram submetidas a 1032 estudantes, que deveriam classificar cada uma delas em uma escala de 1 a 8, de acordo com o grau de concordância.

   A afirmação “A fé é mais importante que as crenças e religiões” ocupa a terceira colocação, com uma média de 6,44. Na nona posição ficou “A verdade está acima das religiões”, com a média de 5,80. Em sentido inverso, em penúltimo lugar ficou “Exerço minha espiritualidade exclusivamente com o grupo da minha igreja” (67º. Lugar – média de 1,92). Assim, para esses jovens universitários a experiência da fé ultrapassa os limites da instituição religiosa, as religiões não detêm o monopólio da verdade.
Continua... 


[1] Socióloga, mestre em Sociologia pela UFRJ, pesquisadora da ONG Iser Assessoria (www.iserassessoria.org.br), onde desenvolve trabalhos relacionados à religião, juventude e cidadania.

[2] Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas. Rio de Janeiro:  Ibase/Polis, 2005.

[3] Os grupos podem realizar mais de um tipo de atividades, por isso os percentuais excedem 100%,

[4] RIBEIRO, Jorge Cláudio. Os universitários e a transcendência – visão geral, visão local. REVER N,2 – Ano 4 – 2004 (revista eletrônica: http://www.pucsp.br/rever/rv2_2004/t_ribeiro.htm)

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Anchietanum - Centro de Juventude,
30 de mar de 2010 12:55
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