Avatares Juvenis

        A revolução tecnológica, que vivemos nos últimos vinte anos, provocou mudanças drásticas nos meios de comunicação. A juventude é a faixa etária que mais sofreu e sofre influências com isso, tornando-se uma grande consumidora destas novas formas de relacionamento. Assim, como uma figura que foi se alterando devido ao surgimento e aperfeiçoamento das novas tecnologias de informação e comunicação social (NTICS), a juventude contemporânea promove uma transformação no sentido e utilização delas. O uso da internet por si só já é visto, por muito, como um caminho de integração, que cria espaços e não-espaços, dando um novo sentido ao conceito de comunicação social. Neste contexto,a juventude é vista hoje como um dos principais protagonistas e propagadora desta nova visão. 

          A internet revolucionou intimamente toda a lógica das formas de se veicular informações e permitiu criar redes nas quais as pessoas possam estar mais “conectadas”, para alguns, mais próximas. Uma sociedade em rede traz mudanças profundas nas formas de socialização e nos traz uma nova forma de pensar o ‘estar-no-mundo’, não mais apenas nas relações pessoais, mas também exige uma relação com os não-humanos, ou seja, com todas as coisas do universo.

As redes sociais que foram disseminadas na internet nos últimos 10 anos (MSN, Orkut, Facebook, Twitter, etc) exigiram e exigem por parte dos usuários um processo de ressignificação da relação pessoa-internet. A juventude é principal público-alvo destas ferramentas, que usam diversas peças e estratégias publicitárias para que ela esteja cada vez mais ‘conectada’, ‘ligada’ no mundo. Entretanto, nestas redes, os jovens as ressignificam, tanto em suas vidas diárias quanto o uso que dão a estas tecnologias.

As ditas ‘redes sociais’ da internet passaram a ser usadas como formas de divulgação de idéias sejam alienantes sejam questionadoras da ordem social e de comportamentos humanos, evidenciando tentativas de se provocar nos usuários espaços para uma reflexão de suas ações e opções de vida. No Orkut, por exemplo, podemos encontrar comunidades com estes nomes: Odeio homofobia (http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=867086), Movimento Mulheres Camponesas (http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=26910120), Juventude em Marcha (http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=97442060), Não à redução da maioridade penal (http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=8538258), etc.

Considerando que os usuários destes espaços devem criar ‘perfis’ de pertencimento, nós reconhecemos, entendemos e sabemos que muitos criam os ‘perfis falsos’, os chamados “fakes”, então, quem se relaciona nas redes sociais virtuais são na realidade personagens/avatares administrados por pessoas numa realidade virtual. Nestes casos, o contato não é mais com pessoas, mas pessoas-avatares, que podem ou não serem fieis às suas vidas ‘reais’. As relações destas personagens já não são mais relações sociais, pois este termo requer a necessidade do encontro entre pessoas físicas que verdadeiramente existam.

O que existe na internet é uma espécie de relação social-virtual entre avatares e a partir delas é que podemos perceber que a internet, como ferramenta de conexão e integração de pessoas, sofre tantas intervenções quanto os usuários sintam a necessidade. Há um certo nível de interatividade por parte dos usuários, porém não há uma reciprocidades ideal, a interatividade esbarra nas relações entre avatares.

         Outro fator a ser considerado no espaço tecnológico, é a exigência se ter o domínio da técnica de manipulação da internet a torna uma ferramenta excludente, na qual apenas os detentores do ‘saber internético’ podem usufruir dela. Este domínio não é apenas mercadológico. Ele gera um anseio de estar incluído no mundo digital, sendo reconhecido e inserido em grupos vrituais.

Ainda vivemos uma valorização pelas informações veiculadas por emissoras de televisão, mas também percebemos o uso de ferramentas virtuais para disseminar as mesmas e outras notícias. Neste aspecto, um movimento que passou a tomar uma grande força na internet são as mídias alternativas, uma possibilidade maior para que ONGs e movimentos sociais possam divulgar mais e melhor suas notícias, protestos, enfim, suas idéias.

A juventude é uma personagem muito presente e protagonista destas ferramentas. Neste sentido, percebemos com muita força o site youtube, e citamos, por exemplo, canais da própria Pastoral da Juventude que, a serviço da divulgação de ações juvenis, têm usado com muita criatividade este site de compartilhamento de vídeos. Entre outros destacamos: TV-PJ do Vicariato de Canoas (http://www.youtube.com/PJdeCanoas), TV-PJ Diocese de Caxias do Sul (http://www.youtube.com/user/PJCaxias), Rali de Comunicação (http://www.youtube.com/user/RaliseComunica).

A utilização destes sites é uma forma encontrada pela juventude para informar e divulgar suas ações e também provocar reflexão sobre o mundo. Por mais que os recursos para a produção destes vídeos sejam escassos, e na maioria dos casos eles são realizações caseiras, são alternativas para intervenções.

         Estas tecnologias internéticas que provocaram o surgimento de todo um universo de conhecimento e espaço virtual torna-se real na medida em que elas são usadas e modificadas por pessoas reais, não importando se essas se manifestam por meio de avatares falsos ou verdadeiros. O que percebemos é que a internet, como um espaço praticamente infinito, é sempre passível de mutações tanto pelos programadores e editores de sites, quanto pelos usuários. A juventude, como usuária principal deste mundo não real que se relaciona com tantos avatares não-humanos, é a personagem real que mais modifica e ressignifica as ferramentas oferecidas pela internet. Os jovens não são apenas jogados ou se infiltram neste universo novo e estranho às suas vidas, mas também transformam a lógica apresentada dando outros significados e funções às NTICS.

A idéia da sociedade em rede exige que a juventude se repense e repense essa a fim de usá-la da melhor forma possível, tendo como tendência a facilitação da vida humana. A transformação das relações sociais para relações sociais entre avatares claro que traz dificuldades para o convívio social, pois o subtraímos em prol da ‘conexão’ com o mundo. Esse distanciamento físico das pessoas devido a uma maior conexão virtual traz presente uma nova forma de pensar grupos juvenis que virtualmente se encontram, se conectam, vivenciam certas experiências, não mais pessoalmente. Eles passam a ser avatares que num encontro virtual reinventam as formas de viver em rede, ou até mesmo, viver em comunidade. As redes sociais e todas as demais novidades originárias inovações tecnológicas da internet não servem apenas como ferramentas de puro entretenimento para os jovens, mas também são usados e modificados por eles num processo pelo qual se reconstrói o sentido das coisas e as adaptam para que estejam a serviço e sejam usadas pela juventude da melhor forma possível.

 

IDEIAS BIBLIOGRÁFICAS:

SAHLINS, Marshall. Ilhas de historias. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1990.


INGOLD, Tim. Jornada ao longo de um caminho de vida – mapas, decobrirdor-caminho e navegação. In: Religião e sociedade, v 25, nº 1, 2005, p. 76 – 110

Autor: Rafael Barros – Integrante da Coordenação da PJ de Canoas/RS

Colaboração: Joana Paloschi

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