Virtualidade, identidades e sociabilidades juvenis

Por Vanessa Aparecida Araújo Correia
 
Por meio da moratória social, a existência juvenil está sempre mediada pela pessoa adulta. A moratória social é essa espécie de suspensão, de espera e tolerância concedido pela sociedade para que os/as adolescentes e jovens se preparem para ingressar na vida adulta (ERIKSON, 1976). Na esfera pública, ela representa uma possibilidade de retardar a entrada do/a jovem na sociedade como um igual ao adulto, retardando também qualquer horizontalidade nas relações de poder. Poderia se dizer que, em alguma medida, é um resguardo do papel do adulto e seu mando sobre os/as jovens (CALLIGARIS, 2000).
            A adolescência é entendida como a fase das estreias, de uma nova adaptação à realidade (WINNICOTT, 1970). Os/as jovens adolescentes[1] fazem sua re-apresentação ao mundo, prescindindo das mediações da infância para  participar da vida social. Acontece que, ainda que com as capacidades físicas de produção e reprodução compatíveis com as dos adultos, o/a jovem adolescente está submetido a essa suspensão imposta pela moratória. Isto é, o seu ingresso na sociedade como um par do adulto não se concretiza plenamente nessa faixa etária.
            No entanto, a sociedade informatizada coloca novos elementos nessa relação jovem adolescente - adulto. Isso porque nas diversas formas de interação virtual surgem e se propagam cada vez mais as relações não mediadas, autogeridas e 'desierarquizadas'.

            Calligaris (2000) afirma que os agrupamentos juvenis, como suas transgressões, são mecanismos pelos quais eles/as pedem sua 'admissão ao mundo adulto', mas, além disso, o/a jovem adolescente busca reconhecimento. Os agrupamentos juvenis, dos quais estão excluídos os adultos, são parte da busca juvenil por “novas condições sociais, em que sua admissão como cidadão de pleno direito não dependa mais dos adultos”.

            Para o autor, a família deixa de ser considerada o principal núcleo da vida na juventude, como é na infância. Os grupos criados pelos/as próprios/as adolescentes favorecem ao mesmo tempo o afastamento dos adultos, isto é, das relações verticais, e a vivência do reconhecimento mútuo.

            As novas tecnologias de informação, além de possibilitar os agrupamentos horizontais, onde os/as adolescentes prescindem das mediações adultas e se reconhecem como pares, podem, em alguma medida, excluir os adultos, uma vez que as novidades da tecnologia são, não raro, dominadas com facilidades pelos jovens e ignoradas pelos adultos.

            Essa é a época da visualidade eletrônica, do século XXI, em que existir é sinônimo de ser visto. Na sociedade do espetáculo, postulada por Guy Debord, desconectar-se das redes de informação representa estar excluído do próprio mundo, deixando de ser real.

            No mundo juvenil, a virtualidade tornou-se parte indissociável das vivências de sociabilidade e construção de identidades. Por meio das redes sociais, blogs e micro-blogs, jovens adolescentes fazem uma experiência fundante para a fase etária que vivem: a da existência para o/a outro.

            A adolescência se constitui como um período de formação de identidade, por meio de um processo de criação autoral, menos mediado. Para Erik Erikson, a identidade define o 'eu sou', criando segurança e estabilidade que permite o estabelecimento de relações de intimidade, as filiações, a fidelidade. Essa definição de quem se é exige como condição preliminar o sentimento de ser real, o que só é possível diante do reconhecimento alheio.

            Para Donald Winnicott (1970), o dilema da adolescência é existir e é pelo olhar do outro que a pessoa se constitui como tal. Tomado pelo medo da invisibilidade e da futilidade, o/a jovem adolescente sente necessidade de ser real para alguém, em algum lugar.

            Nas redes sociais virtuais, alguns fenômenos relacionados ao mundo juvenil se entrecruzam: os processos autorais de criação de identidade – o/a adolescente diz de si mesmo; a visibilidade – a existência para um/a outro/a; a sociabilidade – a formação de comunidades, diversos tipos de relacionamentos e graus de intimidade; a invenção de múltiplas identidades – isto é a criação de outros/as de si mesmo.

            Talvez por esses fenômenos, José Machado Pais (2006) afirma que o mundo virtual representa para os/as jovens adolescentes uma fuga do espaço estriado (da ordem) e a constituição do espaço liso (da liberdade). Essa possibilidade de fuga da estabilidade e do controle, criada pelas novas tecnologias da informação, deve-se a algumas principais características: horizontalidade – ausência de hierarquias; espontaneísmo das relações e descontinuidades. Há ainda o multipertencimento que, segundo Pais, possibilita uma diversidade de encontros e desencontros, ao mesmo tempo, invenções e reinvenções de si mesmo. Essas características invertem a lógica original do espaço estriado, simbolizado para os/as jovens principalmente pela escola e, em alguns casos, pela família.

            Há ainda outra característica da virtualidade que mobiliza elementos importantes da adolescência e juventude: o ato criativo. Para  Winnicott, existir é condição para criar. A internet, ao passo que pode ser canal da experiência de existência para o/a jovem adolescente, pode também ser instrumento de “transformação do mundo pelo gesto”. Segundo o autor, um dos elementos fundantes do ser humano é o ato criativo. No ato de criar, o/a jovem existe, cria o mundo, participa da herança cultural da humanidade, deixando sua marca nos espaços e coisas, ao mesmo tempo em que se apropria delas.

            A natureza do espaço virtual contém todas as circunstâncias para a criatividade. O caráter democrático da internet inverte toda a lógica da autoridade adulta sob a qual jovens adolescentes estão submetidos/as. Pode ser não só mecanismo para garantir a sua existência no mundo, mas para transformar a natureza das relações, das formas de engajamento e das identidades pessoais e coletivas.

            As ferramentas virtuais são hoje, em maior ou menor grau pelas questões de acesso e inclusão, parte da vida juvenil e da formação de identidades, relações e projetos juvenis. Basta a nós nos perguntar se elas são também instrumento para nossas práticas pastorais. Isto é, o quanto estamos conectados com o mundo juvenil, num processo de compreensão das potencialidades e limites dessas novas ferramentas.
 

[1]    No Brasil, por fins de políticas públicas, defini-se como jovens pessoas entre 15 e 29 anos. Nessa faixa etária, se categoriza ainda com a seguinte terminologia: jovens adolescentes (para caracterizar pessoas de 15 a 18 anos); jovens jovens (para caracterizar pessoas de 19 a 24 anos) e jovens adultos (para caracterizar pessoas de 25 a 29 anos)

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