ECOLOGIA, SUSTENTABILIDADE E PARTICIPAÇÃO JUVENIL

Marilene Maia[1]

Os temas ecologia, sustentabilidade e participação juvenil são contemporâneos, entretanto, já contam com uma história que merece ser resgatada, problematizada e, dentro do possível, superada. Este é o propósito deste artigo, que é desenvolvido a partir da memória breve de dois acontecimentos, que apontam marcas importantes nesta historia e que se constituem em baluartes de uma sociedade radicalmente democrática, includente, sustentada e sustentável (SACHS, 2004).

Introdutoriamente é necessário destacar que os temas ambientais suscitam os mergulhos históricos, enquanto processos sociais dos quais toda a humanidade é parte. História constituída por um passado recente, acrescida do tempo presente, em vista da afirmação de um futuro que está em construção.  A juventude é especialmente reconhecida por estes temas, especialmente no Brasil. Isso porque eles têm ecoado de forma mais intensa e articulada nos últimos 20 anos. Ou seja, estas questões nasceram com a grande maioria dos jovens de hoje e são construídas em meio ao seu desenvolvimento, que se confunde com o desenvolvimento societário. 

É importante pontualizar que as questões ecológicas e de sustentabilidade são reconhecidas como questões ambientais. Eis aqui uma primeira problematização, ou seja, sugere-se ampliar este enfoque para socioambiental, já que a sociedade e o ambiente são os agentes implicados diretamente em sua construção e/ou reconstrução.

Entende-se ainda que os problemas socioambientais estão presentes na história dos povos e apresentam uma relação direta com o modelo de desenvolvimento vigente, marcado pela desigualdade social. Um exemplo clássico é a seca do Nordeste e as enchentes no sul do Brasil. Sabe-se que existem as condicionalidades climáticas, territoriais, propulsoras destes fenômenos ambientais, entretanto, já está comprovado que existem determinações sociais, políticas e econômicas que refundam estes problemas. Na década de 80 esta realidade foi explicitada, denunciada e, inclusive, cantada. Uma composição coletiva intitulada “Chega de Mágoa” apresenta esta perspectiva, ou seja, vida tem a ver com a água e terra, que tem a ver com a gente, que planta, que mora,que sofre e quer ser feliz. Por isso a realidade é ambiental e social, e também econômica,  cultural e política. Com isso, tematizar ecologia, sustentabilidade e participação tem a ver com o poder.  

Nós não vamos nos dispersar

Juntos, é tão bom saber

Que passado o tormento

Será nosso esse chão...

(Composição coletiva)

Neste contexto apresentam-se a seguir os dois acontecimentos, que marcaram a história e podem contribuir, a partir da sua atualidade, para a problematização e superação dos cenários afetos à ecologia, à sustentabilidade e à participação juvenil.           

O primeiro acontecimento diz respeito à democratização do Estado e da Sociedade brasileira, superando a ditadura e constituindo o Estado Democrático de Direitos em 1988, que pode ainda ser identificado como “Estado socioambiental de Direito” (FENSTERSEIFER, 2008). Experiência recente que desafia a todos/todas à aprendência (ASSMANN, 1998) democrática das relações entre as pessoas, instituições e ambiente. Introduz-se então a dimensão  ambiental à democracia. Necessidades, interesses e vontades precisam ser respeitados e valorizados para a construção do desenvolvimento societário.

Outra perspectiva que se introduz neste cenário é a participação, conquista e exigência da democracia. Compreende-se participação como:

[...] processo social que existe independente da interferência provocada por um ou outro agente externo. [..] a participação é o próprio processo de criação do homem ao pensar e agir sobre os desafios da natureza e sobre os desafios sociais, nos quais ele próprio está situado. Como tal é um processo dinâmico e contraditório (SOUZA, 1999, p. 81).

Neste contexto da democratização e participação é reconhecida a importância de cada sujeito, com sua identidade e potenciais, seja pela classe, gênero, etnia, cor, geração, ... Revela-se aí a importância da participação juvenil apresentando suas experiências, demandas, perspectivas e contribuições para a sua vida e, ao mesmo tempo, para o todo da vida societária. Teixeira aclara os movimentos implicados a essa participação, que também apresenta contradições e é exatamente na contradição que se constroem novos projetos e práticas.

[...] fazer parte, tomar parte, ser parte de um ato ou processo, de uma atividade pública, de ações coletivas. Referir a parte implica pensar o todo, a sociedade, o Estado, a relação das partes entre si e destas com o todo e, como este não é homogeneo, diferenciando-se os interesses, aspirações, valores e recursos de poder. Apresenta-se assim o problema de como responder aos interesses gerais em face do particularismo e do corporativismo dos atores, exigindo-se condições objetivas e subjetivas e espaços públicos onde possam ocorrer negociações e compromissos para que as argumentações, livremente expostas, permitam chegar-se a um consenso traduzível em decisões no sistema político (TEIXEIRA, 2002, p. 27).

Este acontecimento aponta dois componentes novos à toda a sociedade brasileira e, também, aos jovens, que merecem ser cuidadosamente compreendidos, analisados, problematizados e, dentro do possível, superados. Um deles diz respeito à identificação da dimensão socioambiental da vida societária democrática e, por isso, merecedora de proteção do Estado e da sociedade. Este é um discurso recorrente, porém, na prática cotidiana sabe-se dos impedimentos para isso, já que nem sempre este é o interesse do capital, centro do modelo de desenvolvimento hegemônico contemporâneo. Evidente contradição que necessita ser explicitada e confrontada. O posicionamento político acerca desta opção é fundamental para consolidar o caminho de uma contra-hegemonia ao modelo de desenvolvimento vigente.

O outro aspecto introduzido com a democracia e com o Estado Socioambiental de Direito é a garantia da participação de todos os segmentos populacionais na definição dos rumos do desenvolvimento local, nacional e global. Protagonismo também tensionante, construído em meio aos diferentes interesses dos agentes em relação à vida societária. Eis aí a potencialidade e contribuição da juventude pela capacidade criativa, inovadora e ousada, que marcam sua existência. Seu protagonismo individual e coletivo, tanto através das organizações estatais, como da sociedade civil, fazem toda a diferença. Existe uma chamado especial para o controle social, no sentido de anunciar, denunciar e estar vigilante à experiência da democracia, enquanto processo educativo e transformador da cultura política da sociedade e suas instituições.

         Um segundo acontecimento resgatado, que pode ser reconhecido como um marco referencial para esta temática tríplice – ecologia, sustentabilidade e participação - foi a ECO 92, ou seja, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, que foi realizado no Rio de Janeiro em junho de 1992 e teve como principal objetivo buscar conciliar o desenvolvimento socioeconômico com a conservação e a proteção dos ecossistemas da terra. Este evento contou com a participação dos chefes de Estado e, ao mesmo tempo, de lideranças dos movimentos e organizações da sociedade civil comprometidos com a vida e suas garantias.

Esta Conferência tornou pública a questão socioambiental e, ao mesmo tempo, apontou consensos e dissensos entre Estado e sociedade civil, tornando-a uma pauta política. Revelou o imprescindível protagonismo e participação popular na tematização, problematização e superação de questões implicadas à ecologia. Neste contexto, emerge o tema do desenvolvimento sustentável, que aponta diferentes conceitos e promove o debate amplo sobre qual o desenvolvimento que a sociedade quer. As organizações e movimentos sociais, também da juventude tomaram parte deste processo, que está presente nos diferentes espaços até hoje.

Cenário experienciado há quase 20 anos que foi reeditado recentemente ( final de 2009) na Conferência sobre o Clima, realizada em Copenhague, com inúmeros impedimentos e fraquíssimos impactos, explicitando, mais uma vez, o confronto de interesses econômicos e políticos que está em jogo para a definição dos rumos socioambientais do planeta. 

Apesar disso, continua validada a ECO 92 enquanto acontecimento que inseriu a ecologia como pauta política, promotora do debate e  embate dos diferentes agentes governamentais, da sociedade civil e econômicos. A ampliação do enfoque do ecológico para o sustentável, subsidiado por um debate teórico ainda em construção, implicado a um novo conceito - sociedade sustentável, traduz-se como possibilidade para seguir caminho neste tempo de tantas incertezas e indeterminações (OLIVEIRA & RIZEK, 2007)..

Fica apontado com estes acontecimentos e cenários implicados à ecologia, sustentabilidade e participação, a necessidade da sua apreensão na totalidade, de forma inter/transdisciplinar para que alcancem melhor compreensão técnica e política, em vista da busca e estabelecimento de consensos para o enfrentamento às crises societárias implicadas. Há uma exigência para isso de uma construção intersetorial, da qual necessitam estar articulados os agentes governamentais, econômicos e da sociedade civil.

         É importante perceber avanços importantes neste campo, tanto na perspectiva técnica como política. Por outro lado, são visíveis os limites condicionantes aos avanços necessários, que se constituem nos planos econômicos, políticos e culturais. É urgente o reforço às práticas educativas que interfiram no fortalecimento dos sujeitos individuais e coletivos para que, por sua vez, interfiram nas diferentes esferas determinantes da crise socioambiental experimentada na atualidade.

         A juventude pode inspirar-se nos movimentos da história para isso e, ao mesmo tempo contribuir no fortalecimento dos mesmos para a afirmação da sociedade sustentável, importante e necessária para a garantia das vidas nos próximos anos. Em 2000 foi finalizado um documento referencial para o trato dos temas ecologia, sustentabilidade e participação. Seguem fragmentos da CARTA DA TERRA  para esta inspiração e caminho;

[...] Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.

Continua....
 
BAIXE O ANEXO E LEIA O TEXTO NA ÍNTEGRA

[1] Assistente Social, Professora da Universidade do Vale do Rio do Sinos ( UNISINOS), Doutora em Serviço Social – PUCRS. Contato: marilene@unisinos.br

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Anchietanum - Centro de Juventude,
14 de jun de 2010 11:23
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