Caminho de Emaús: Uma ótima lição de assessoria¹.

Joilson José Costa²

 

1. Introdução.

 

O presente texto é uma tentativa de fazer uma interpretação dos versículos 13 a 35 do capítulo 24 do Evangelho de São Lucas, passagem muito conhecida como “Os discípulos de Emaús”. A intenção é refletir a passagem a partir de suas lições para a vivência do ministério da assessoria na Pastoral da Juventude.

 

Importa dizer que tal interpretação não foi feita por um biblista e muito menos por um teólogo, logo deve ter suas limitações exegéticas e teológicas. O “ensinamento” e o fundamento é a minha própria caminhada pastoral na PJ, que já se aproxima dos 10 anos... Assumo então, as possíveis limitações.

 

A escolha de tal passagem fundamenta-se pela profunda admiração pessoal à mesma e também pelo seu enorme conhecimento nos meios pastorais. Tratando-se dos ensinamentos da Palavra de Deus há muitas outras passagens das quais podemos tirar boas lições para exercer e vivenciar melhor o ministério da assessoria. Lembro que o Pe. Vilson Basso no seu livro³ sobre assessoria escolheu todo o capítulo 18 do livro do Êxodo para partilhar algumas lições de Jetro, sogro de Moisés. Lembro também do bonito exemplo de João Batista: “é preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Enfim, a Bíblia é a nossa melhor e maior fonte.

 

2. Contextualizando.

 

O cenário da passagem é o caminho feito de Jerusalém à Emaús, distantes cerca de 11 Km uma da outra, daqui podemos concluir que a “conversa” foi bem longa. Também como cenário temos o local onde entraram para passar a noite. Há basicamente três personagens: os dois discípulos e Jesus. Apenas nos versículos finais entram em cena os que permaneceram em Jerusalém.

 

Na passagem verifica-se que os discípulos estão saindo de Jerusalém desanimados e tristes com a morte de Jesus. Devido à aparente “decepção” estão desesperançados. Porém, o próprio Jesus, ressuscitado, aparece e caminha com eles.

 

            3. Relendo e refletindo.

Nesse mesmo dia, dois discípulos iam para um povoado,

chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém.

 Conversavam a respeito de tudo o que tinha acontecido.

 

O dia referido é o dia da Ressurreição do Senhor. Antes do nascer do sol o grande mistério já havia acontecido. A confirmação já havia sido anunciada a Maria Madalena, a Joana e a Maria, mãe de Tiago, porém os discípulos não acreditaram no testemunho delas. Não acreditando na Ressurreição de Jesus, esquecidos de seus ensinamentos e prevendo que seriam perseguidos por serem seus discípulos, restava-lhes o medo, a desilusão e a opção de sair de Jerusalém.

 Enquanto conversavam e discutiam,

o próprio Jesus se aproximou,

e começou a caminhar com eles.

 Os discípulos, porém, estavam como que cegos,

 e não o reconheceram.

 

A primeira atitude de Jesus é a de se aproximar deles. Esta é também a primeira lição para uma autêntica assessoria: aproximar-se dos/as jovens e caminhar com eles/as. A juventude anseia por alguém que a acompanhe em sua difícil caminhada de descobrimento de si e do mundo.

 

Na Pastoral da Juventude o caminho do processo de educação na fé é mais difícil de ser trilhado sem um adequado acompanhamento. Jesus se aproxima gratuitamente dos discípulos. Devemos também ter no coração essa gratuidade, que deve ser fruto de nosso amor à juventude. Aqui está um bom ponto de partida para esta grande caminhada que é o Ministério da Assessoria.

 

Verifica-se também que Jesus respeita a caminhada dos discípulos, pois sabe que se revelasse logo quem era, eles voltariam imediatamente para anunciar aos outros/as. Prefere então fazê-los reconhecê-lo gradualmente, através de um processo de educação na fé. Eis aqui uma outra lição: respeitar a caminhada, o ritmo dos/as jovens. Não basta dizer que Jesus Cristo é o Senhor, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. É preciso fazer com que os/as jovens mesmos descubram isso através de sua experiência pessoal de encontro com Ele.

 

Por isso, não dá pra exigir que os/as jovens se transformem, se engajem e se comprometam com a caminhada antes deles mesmos estarem convencidos, o que deve acontecer a partir de sua escuta ao chamado que o próprio Cristo (e não os/as assessores/as) lhes faz.

 

Daí a necessidade também de um conhecimento adequado, por parte da assessoria, do Processo de Educação na Fé da PJ, que é sistematizado na intenção de se promover, primeiramente a experiência pessoal (convocação, nucleação e iniciação) e consequentemente o seguimento a Cristo e a seu Projeto (militância).

Então Jesus perguntou:

 “O que é que vocês andam conversando pelo caminho?”.

Eles pararam, com o rosto triste.

 

A segunda atitude de Jesus é partir da realidade dos discípulos, ou seja, do que estavam conversando. Jesus foi um profundo conhecedor da realidade de seu povo. Passou a maior parte de sua vida discernindo sua Missão a partir da vontade do Pai e desta realidade. Arrisco-me a dizer até que o conhecimento e a indignação com a mesma o ajudou em seu discernimento. Jesus partia da realidade das pessoas e as levava à transformação da mesma através da conversão pessoal.

 

Surge então a terceira lição: partir sempre da realidade dos/as jovens. Não adianta chegar logo falando de Deus, anjos, sociedade nova... sem nem ao menos perguntar ao jovem qual a sua situação neste mundo. É necessário, e muito bonito, perguntar aos/às jovens: “Do que vocês estão conversando?”, “Qual é o papo da hora?”, “Quais os problemas de vocês?”.

 

O Documento 85 da CNBB: “Evangelização da Juventude – Desafios e Perspectivas Pastorais” inicia o seu primeiro capítulo afirmando que “conhecer os jovens é condição prévia para evangelizá-los. Não se pode amar nem evangelizar a quem não se conhece” (Doc. 85 CNBB, 10). Ajuda neste sentido, não só o contato pessoal, mas o estudo mesmo da cultura e da realidade juvenil, com tudo o que isso significa.

 

 Um deles, chamado Cléofas, disse:

 “Tu és o único peregrino em Jerusalém

 que não sabe o que aí aconteceu nesses últimos dias?”

Jesus perguntou: “O que foi?”.

Os discípulos responderam:

“O que aconteceu a Jesus, o Nazareno,

que foi um profeta poderoso em ação e palavras,

diante de Deus e de todo o povo.
Nossos chefes dos sacerdotes

 e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte,

 e o crucificaram.

 

Ao ser indagado se não sabia dos acontecimentos Jesus poderia muito bem dizer: “Ah, sobre Jesus né? Sei...” Porém, ele prefere promover o protagonismo dos discípulos e fazê-los, eles mesmos, dizerem-lhe o que aconteceu. Eis uma grande lição para a assessoria na PJ: promover o protagonismo da juventude!

 

Uma lição que nem sempre é fácil de ser aprendida e praticada, pois na maioria das vezes temos a enorme tentação de termos sempre uma resposta para os questionamentos e problemas e acabamos não nos dando conta que tal postura impede que a juventude descubra por ela mesma. Que educativo seria se em vez de respostas prontas devolvêssemos à juventude perguntas que as fizessem tirar de dentro, ou “conduzir para fora” de si (como nos ensina a raiz etimológica do verbo educar) as respostas aos seus questionamentos e problemas.

Nós esperávamos que fosse ele o libertador de Israel,

mas, apesar de tudo isto, já faz três dias que tudo isso aconteceu!

É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deram um susto.

Elas foram de madrugada ao túmulo,

e não encontraram o corpo de Jesus.

Então voltaram, dizendo que tinham visto anjos,

 e estes afirmaram que Jesus está vivo.

Alguns dos nossos foram ao túmulo,

 e encontraram tudo como as mulheres tinham dito.

 Mas ninguém viu Jesus”.

 

Nesse trecho verificamos que os discípulos ainda conservavam uma visão errada a respeito de Jesus. Queriam que o Messias libertasse Israel à maneira deles. Que acabasse de uma vez por todas com a opressão sofrida pelo povo e retomasse o trono perdido de Israel. Esqueceram o ensinamento do Mestre: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens. Eles o matarão, mas no terceiro dia ele ressuscitará” (Mt 17, 22-23).

 

Esqueceram também que Jesus em diversas ocasiões disse que os enviaria a anunciar a Boa Nova, ou seja, a continuar a sua Missão. Quer dizer que ele não veio para fazer tudo sozinho, mas que contava com a ajuda dos discípulos para que a libertação do povo fosse completa. Se fosse para a libertação ter apenas o caráter divino não haveria necessidade de Jesus se encarnar, se fazer um de nós. A libertação humana passa pela colaboração do próprio homem. 

 

Aqui nos serve de lição a necessidade de apresentarmos esta convicção: Jesus conta com cada um de nós, também com os/as jovens, para a realização de seu Projeto. Jesus já se encarnou uma vez e mostrou que não seria do jeito que o povo pensava e desejava que fosse. Portanto, não adianta achar que ele vai descer e resolver os grandes pecados da humanidade: capitalismo, corrupção, violência, egoísmo, consumismo... Nós é que temos que fazê-lo! O papel da assessoria também é ajudar os/as jovens a se convencerem disso.

Então Jesus disse a eles:

“Como vocês custam para entender,

 e como demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram!

Será que o Messias não devia sofrer tudo isso,

 para entrar na sua glória?”

Então, começando por Moisés

 e continuando por todos os Profetas,

 Jesus explicava para os discípulos todas as passagens da Escritura

 que falavam a respeito dele.

 

Após constatar a incredulidade dos discípulos Jesus fica sem escolha: tem que “puxar-lhes as orelhas”, repreende-os devido a seu não entendimento dos acontecimentos e por não acreditarem no que ele mesmo havia lhes dito que deveria acontecer. Porém, logo em seguida Jesus explica a eles as Escrituras. Faz uma verdadeira catequese para mostrar-lhes que nada estava fora das Escrituras e para tentar fazê-los acreditar na Ressurreição.

 

Às vezes também é necessário chamar a atenção da juventude. Afinal, ninguém é perfeito, todos/as somos passíveis de erros, também a juventude. O nosso amor à juventude não deve significar aprovação cega a todos os seus atos e decisões, mas deve nos levar a fazê-los reconhecer os seus erros quando necessário e a mostrar-lhes o caminho correto.

 

Acredito que o trecho também nos coloca a importância do profundo conhecimento da Palavra de Deus, a fim estarmos sempre prontos a “darmos razão de nossa esperança” (cf. 1Pd 3,15) junto à juventude e à sociedade. Tal necessidade de conhecimento nos lembra também de cuidarmos sempre de nossa formação, e isso em todos os aspectos. 

Quando chegaram perto do povoado para onde iam,

 Jesus fez de conta que ia mais adiante.

Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo:

 “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando.”

Então Jesus entrou para ficar com eles.

 

Novamente aqui Jesus leva os discípulos ao protagonismo, à iniciativa de convidarem-no para ficar com eles. Jesus não invade a intimidade dos mesmos, mas a respeita. Promove assim, o sentimento de acolhida, tão praticado por ele em sua Missão. Eis aqui mais uma grande lição.

 

Sentou-se à mesa com os dois,

 tomou o pão e abençoou,

 depois partiu e deu a eles.

Nisso os olhos dos discípulos se abriram,

 e eles reconheceram Jesus.

 Jesus, porém, desapareceu da frente deles.

Então, um disse ao outro:

 “Não estava o nosso coração ardendo,

 quando ele nos falava pelo caminho,

 e nos explicava as Escrituras?”

Na mesma hora,

 eles se levantaram e voltaram para Jerusalém,

 onde encontraram os Onze, reunidos com os outros.

E estes confirmaram:

“Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!”

Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho,

 e como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão.

 

Particularmente, considero o momento da revelação um dos trechos mais importantes da leitura, pois é através de sua revelação que Jesus devolve a esperança aos discípulos, o que faz estes retornarem à Jerusalém, ou seja, à Missão.

 

Eis aqui uma grande lição para a assessoria na Pastoral da Juventude: devolver a esperança aos milhões de jovens que se encontram desesperançados com os mais diversos males de nossa sociedade, seja o descrédito na “política”, o sentimento de impotência diante da corrupção generalizada, da violência social, dos desmandos da elite capitalista, da destruição da Criação de Deus...É de suma importância devolvermos a esperança aos/às que já não tem esperança na verdadeira justiça e se sentem impotentes para mudar nossa deplorável situação.

 

Aqui também é interessante observar o papel que cumpre a Eucaristia: fazer comunhão com Cristo e “abrir os olhos” para a realidade do Reino. A lição aqui é a centralidade que a Eucaristia deve ocupar na vida dos/as que se dispõem a caminhar com os/as jovens.

 

4. Considerações Finais.

 

Acredito que a grande lição da passagem, e que se constitui em nossa grande tarefa, seja recuperar e devolver a esperança numa política como concretização do bem de todos/as, numa humanidade fraterna e igualitária, num mundo onde a paz seja fruto da justiça (cf. Is 32,17), onde o mar (aqui significando o mal) já não existe (cf. Ap 21,1), onde todos/as tenham “vida em abundância” (Jo, 10,10), enfim, devolvermos a esperança na Civilização do Amor. Porém, sem nunca nos esquecermos que tal mundo deve ser construído com a nossa colaboração, que não podemos “fugir” dessa tarefa. Do contrário acredito que já estaríamos todos no Céu.

 

Ao refletir a leitura para escrever estas linhas, fiquei imaginando a cena: Jesus, do alto da Glória do Céu, de repente olha pra baixo e se espanta: “Epa! Onde é que aqueles dois pensam que vão? Estão pensando que acabou? Tenho que fazê-los voltar.” E o jeito de fazê-los voltar acaba nos apresentando estas (e talvez muitas outras não comentadas) belas lições. 

 

         O motivo para esta atitude de Jesus pode ser encontrada na continuação do capítulo do Evangelho, quando Jesus aparece a todas/as de uma vez (devolve-lhes a esperança), prova a sua Ressurreição, lembra-os de seus ensinamentos e da Escritura Sagrada e pede-lhes para que não saiam da cidade até que fossem revestidos pelo Espírito Santo (cf. Lc, 24, 49) através do qual receberiam a força necessária para continuar a maior Missão da humanidade.
 

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¹ Texto originalmente escrito para o Curso de Capacitação de Assessores/as Paroquiais, São Luís, MA, 27-29/03/2009.

² Membro da Equipe Arquidiocesana de Assessores/as da PJ – São Luís/MA.

³ BASSO, Vilson. Paixão e Mudança – Assessoria na Pastoral da Juventude. São Paulo: Paulinas, 1997.

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