Estruturas Sociais

    As estruturas que afetam a vida da juventude e a vida de nossos povos latinos

“La Pastoral Juvenil está contribuyendo a mejorar la vida de los pueblos, cuáles pueblos?, ¿en dónde se ven esos frutos? Acaso las personas que se convierten, porque se han encontrado con Jesús y su propuesta, no deberían pertenecer de alguna manera a un grupo social determinado para desde allí hacer realidad un mundo nuevo, un reino de justicia, o solo se trata de “convencer” de ciertas verdades de fe, reafirmar verdades teológicas y alienar a la gente un modo de pensar y de actuar?” (joven Ecuador)

         Não olhamos para a estrutura que afeta a vida de nossos povos e jovens no continente como meros curiosos/as.  Queremos olhar, como Jesus, e a partir da comunidade eclesial daqueles/as que, porque crêem no ressuscitado, se juntam para anunciar a vida e não se deixam vencer pela morte. Portanto, nosso olhar é um olhar esperançado, ou seja, um olhar que se move para um horizonte de vida em abundância. Não é uma espera vã.  Colocamo-nos no lugar de quem se move em direção à vida.

         Se assumirmos a postura e a pedagogia de Jesus vamos, com Ele, andar pelos lugares bíblicos e aprender, dEle, como olhar para esta realidade, buscando as causas mais profundas das injustiças que impedem que a humanidade seja,de fato plenas como Deus a sonhou, ao criá-la. É a mesma prática de Jesus que queremos atualizar no Continente. Belém, Samaria, Betânia, Jerusalém, Emaús... têm muito a nos ensinar para que, ao percorrer nossas cidades, possamos aproximar-nos da realidade, inserir-nos nela e agir, assim como Jesus, de modo que as estruturas de morte sejam alteradas. Não é uma ação ingênua, sem leitura do mundo; não é repetir fórmulas; é possibilitar que a vida seja recriada em todos os sentidos para que os povos do continente possam ter mais vida.

Que estruturas compõem a realidade do continente Latino-Americano e Caribe? Primeiro, teremos que identificar o que nos impede de olhar? Como tirar a trave do olho, como nos recomenda Jesus? Como está o protagonismo juvenil ante esta realidade? Como o “fazer pastoral” contribui para a construção da Civilização do Amor?

1.     Interferência das estruturas na vida dos/as jovens da América Latina

Os/As jovens apontam estruturas que afetam suas vidas a partir do privado e a partir das instituições: família, escola, Igreja e Estado. Apontam aspectos que provocam correntes de vida e morte, oferecendo condições para sua realização como pessoa e, também, apresentando frustrações em seus processos.

    1. A concepção que as instituições têm dos/as jovens impede o diálogo porque traz uma visão pré-concebida do “sujeito jovem”, gerando violência. Não há escuta. O que há é imposição de uma visão do adulto; uma atuação de uma sociedade adultocêntrica. Esta situação de ausência de diálogo foi apresentada em todas as instituições.
    2.  A família é apresentada como o grupo afetivo de referência. Ao olhar a família, contudo, diz que é necessário separar a sua estruturação dos modelos que estão postos, como referência. A família está desestruturada por diversas situações (econômica, social, educacional, por trabalho ou por desemprego) e não só por um modelo ideal (papai, mamãe e filhos). A desestruturação independe desta realidade. Na família, o espaço de vida dos jovens fica comprometido porque é impedido em desabrochar na sua originalidade e criatividade para a qual foi criado. Não encontra, neste lugar, condição para as diferenças e as referências para o seu crescimento em um grupo afetivo. Também se falou que a família, quando respeita o/a jovem, é um espaço de segurança, como pessoa, na sua relação com a outra pessoa e com o sagrado; sente-se, igualmente, mais seguro tanto na escola como em outros espaços da sociedade, emprego e participação social.
    3. Na escola – disseram – falta método de ensino aprendizagem a partir da realidade e do contexto onde vivem e atuam os/as jovens; falta trabalhar o olhar sobre a juventude e formação humana para os/as educadores/as e, o mais grave, a escola não é para todos/as. Embora o discurso seja universal, há variados tipos de escola: algumas são para a não-aprendizagem ou são para preparar os/as jovens pobres para determinados serviços e os jovens de classe alta e média para outros serviços, perpetuando a estrutura do modelo social. Infelizmente, a educação corre o risco de ser reprodutora do sistema vigente, gerando morte e não contribuindo na formação de sujeitos autônomos construtores/as de um mundo justo e fraterno.
    4. O trabalho e o emprego são apresentados tanto como uma necessidade de conquistar o primeiro emprego como algo que dê segurança para o futuro e para organizar projetos de vida. O emprego é apresentado, também, como um lugar de exploração de todas as forças devido à extração do lucro, a uma nova organização do trabalho e à mecanização. O trabalho não é estruturado como um valor; ele tem um caráter muito mais volátil, organizado de acordo com a necessidade do capital circulando com sempre maior rapidez. São perdidos, também, vários direitos conquistados. O emprego altera, igualmente, a organização da vida onde os/as jovens tinham seu final de semana livre, porque o tempo do emprego está organizado de segunda a segunda e em 24horas. Este modo de organizar gera desmobilização de agrupamentos juvenis em vários espaços, dentre eles a comunidade eclesial.
    5.  O Estado – responsável pelas políticas sociais? No capitalismo neoliberal esta responsabilidade é assumida como mínima, precarizando-a; por outro lado, existe a organização das Políticas Publicas da Juventude, como espaço de mobilização a partir dos próprios jovens, na defesa dos direitos e da vida deles/as.
    6.  A Igreja também é apresentada como uma instituição que pesa sobre a vida da juventude porque, ora faltam canais de escuta, ora alguns projetos se tornam hegemônicos, em detrimentos de outros, como o dos grupos, organizados a partir de processos. Também é neste lugar eclesial que muitos fazem a leitura da realidade, a partir de uma proposta de evangelização; atuam como sujeitos na construção da vida, fortalecidos pela oração, pelos sacramentos e pelas celebrações eucarísticas da comunidade.
    7.  Em algumas análises da situação social e política do continente há uma leitura de um novo populismo; na mesma leitura, contudo, não se analisa o sistema neoliberal provocador de brechas cada dia maiores entre ricos e pobres, onde a exclusão alcança um forte grau de indiferença das pessoas diante da morte. Estamos num continente onde o índice de extermínio de jovens, países com os índices mais altos de mortalidade. Também esta sociedade, articula sistemas que envolvem arma, polícia e drogas em teias que impedem os/as jovens empobrecidos, de modo especial, a não projetarem sua vida porque muitos deles/as são mortos/as. Este sistema é alimentador da economia que sustenta o nosso dia a dia.

 

2.     Protagonismo dos/as jovens que mobilizam os obstáculos na alteração das estruturas para a vida de nossos povos

O protagonismo supõe autonomia e liberdade na formação de sujeitos capazes de reconhecerem os obstáculos postos no caminho e que, na maioria das vezes, nos impedem de enxergar a realidade. Protagonismo supõe desenvolvimento de capacidade crítica para a leitura do mundo, superando uma visão ingênua e exigindo um posicionamento frente à realidade de morte.

a.      Propõe-se uma nova lógica. A lógica de esgotamento e o colapso do sistema econômico social são percebidos pelos jovens que se organizam em movimentos culturais e ecológicos. Não haverá vida no planeta se não houver uma interrupção deste modelo de consumo e de destruição do planeta em vista do lucro. A sensibilidade da juventude, em muitos lugares, provoca um pensar a partir de outros referenciais – como a ecologia, o cuidado com o planeta, ou manifestações que denunciam o sistema através da cultura Hip Hop que, com suas manifestações de grafite, dança e música, provocam e denunciam as situações de morte que estão vivendo. Os jovens rompem porque fazem cultura de rua, quando o modelo atual obriga e mantém a atuação no privado.

b.       A política partidária tem gerado um movimento de descrença, de não-participação e de desconfiança generalizada; por outro lado, contudo, há movimentos juvenis organizados, em vários lugares, pela defesa dos direitos, da vida e da organização em outros modelos.

c.      Na Igreja há grupos de jovens que continuam insistindo em agrupamentos que vão além das sacristias; nas escolas, comunidades indígenas, comunidades rurais, ribeirinhas, nas periferias, nas universidades, participam de movimentos de direitos humanos, lutam para defender a vida da juventude, com isto, vai-se contra a lógica do individualismo e do egoísmo tão difundida pelo sistema. A resposta cristã é a comunidade e, por isto, a proposta de grupos nos vários ambientes como uma tarefa que ajuda a construir o espaço da política, ou seja, o lugar do outro.

d.      Há uma sensibilidade desta geração para uma diversidade de conhecimentos que vão além de currículos escolares, querendo novas formas de aprendizados pela comunicação, pelas redes sociais em nível global, latino-americano e nos países. Estas redes sociais estabelecidas são capazes de levar-nos para a solidariedade, a amizade e a partilha.

e.       O protagonismo também está presente na expressão de juventudes que se aliam ao movimento conservador da sociedade, muitos deles ligadas à cultura advinda do nazismo (da limpeza, dos grupos eleitos, da eliminação do diferente). Assumem tanto a manutenção da discriminação, da morte, da violência como uma postura de indiferença frente à realidade tornando-se reacionários/as.

f.       Os/as jovens também têm constituído, em suas experiências, uma vivência de famílias com valores do respeito ao diferente, e rompido com os papeis tradicionais de homens e mulheres com tarefas determinadas, inclusive no cuidado dos filhos/as. Verifica-se isso, igualmente, em outras instituições através de vários exercícios valores que evidenciam a construção de uma sociedade de maior equidade.

3.     Dinamismos e obstáculos que geram novas estruturas na vida de nossos povos a partir da prática da Pastoral Juvenil

O seguimento a Jesus, na comunidade dos que crêem no ressuscitado, através de nossa ação eclesial como Pastoral da Juventude, desde o lugar em que o jovem é reconhecido “como o melhor apóstolo de outro jovem”, apresenta seu dinamismo e obstáculos frente às estruturas de vida a serem construídas no Continente como testemunhas da vida em abundância.

a.      A prática da PJ, ao oferecer grupos e acompanhamentos de um processo de formação integral e educação da fé, possibilita que os/as jovens possam fazer uma leitura crítica da realidade. A vida em grupo educa para o comunitário e rompe com a cultura centrada na pessoa.

b.      A formação integral, como princípio, possibilita que a leitura da realidade seja um princípio na capacitação dos sujeitos tanto na pessoa com ela mesma, na pessoa com o grupo, atuante em uma sociedade, a partir de uma evangelização, e como protagonista da sua história, capaz de organizar ações tanto a partir de seu lugar como em ações globais.

c.      A experiência do encontro com o Ressuscitado na comunidade faz-nos homens e mulheres novos, capazes de assumir o Projeto do Reino de Justiça que passa a ser central na vida da juventude.

d.      A falta de acompanhamento e de uma opção clara pela ação pastoral onde os jovens sejam sujeitos e protagonistas, assumidos/as como evangelizadores/as da juventude, não respeita o potencial da juventude e forma gente para a sacristia e não para a transformação do mundo injusto para um mundo onde a vida é abundante.

Se recordamos, aqui, o encontro de Jesus com a viúva em Naim, aprendemos com Jesus que a morte não nos paralisa. Aprendemos, também, que há dois cortejos – o da vida e o da morte e que todo o tempo de nosso seguimento a Jesus de Nazaré em nosso engajamento na comunidade eclesial, como testemunhas do ressuscitado - assim como a ação de Jesus relatado no Evangelho - precisa tocar a estrutura da cultura a ponto de provocar uma mudança de lógica. Sair do lugar da morte – que aparece como homogêneo, sem conflitos e sem criatividade, para entrar no caminho da vida, que marcado pela diversidade, pela diferença, pela singularidade de cada ser e por isto, marcado pelo desígnio de Deus – criar pessoas para serem felizes.

Síntese a partir dos textos, debates, histórias de vida dos/as jovens. Elaborado por Carmem Lucia Teixeira e Luis Duarte.

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