Diversidade e Sexualidades

Diversidade sexual, gênero e juventude: desafio de nossa prática pastoral

 

“Temos o direito de ser iguais sempre  que a desigualdade nos exclui e temos o direito de sermos diferente sempre que a igualdade nos descaracteriza”

(Boaventura Souza Santos)

 

           

            Nosso discurso, mas também nossa prática, fruto da acumulação de anos de experiência pastoral com jovens, aponta para a intenção da formação integral. Isto é, aquele/a jovem, como muitos de nós, que chegam aos grupos somos pessoas integradas por dimensões que revelam nossa completude e complexidade como humanos.

            E nós, em nossos grupos, seguimos orgulhosos/as de compreender o/a jovem como sujeito constituído por dimensão teológica-teologal, psico-afetiva, técnica, política e sócio-cultural, compondo uma unidade. É um sofisticado discurso antropológico que nossas atuação pastoral domina bem.

            O curioso é que, apesar desta sofisticada compreensão antropológica da condição humana, o/a jovem que chega em nossos grupos muitas vezes não é compreendido como um ser sexuado. Isto é, a dimensão da sexualidade, de modo especial com as questões que dizem respeito às relações de gênero e diversidade sexual, não estão tocando nossa prática pastoral. A sexualidade como caminho para organizar a conduta e a existência do sujeito, definindo os valores e as relações afetivas-sexuais de modo integrado e integrador, inexistem no campo de nossos interesses, práticas e preocupações pastorais.

            O problema é que o não reconhecimento do papel da diversidade sexual e de gênero nos diversos espaços e instituições da sociedade, inclusive em nossos grupos pastorais, cria um cenário que distancia definitivamente a consolidação de uma sociedade com referenciais para novos valores de aceitação, tolerância e valorização das diversidades e sexualidades. Isso significa que afasta de nós o próprio Reino de Deus.

            Em termos de metodologia de atuação pastoral, temos aí um outro problema significativo: como é que se acessa o/a jovem ignorando essas dimensões fundantes de sua especificidade enquanto sujeito?

            Abaixo, vamos discutir alguns conceitos para afinar nossa conversa:

·        Identidade de Gênero: podem ser compreendidas como o modo de as pessoas se sentirem e se manifestarem; uma expressão da pessoa (masculina ou feminina), independente do seu sexo. A identidade de gênero inclui o senso pessoal do corpo e outras expressões de gênero, inclusive vestimenta, modo de falar e se manifestar.

·        Orientação sexual: o nosso desejo de pessoas se orienta na direção da outra pessoa, que pode ser homem ou mulher. A essa orientação do desejo chamamos orientação sexual. Refere-se à capacidade de cada pessoa de ter uma profunda atração emocional, afetiva ou sexual por outro indivíduo.

·        Sexualidade: De modo simplificado, podemos entender como uma energia da expressão humana. Todo nosso modo de estar no mundo está marcado pela nossa sexualidade. Em termos mais teológicos, a sexualidade é força criadora na pessoa.

 

            Nesse mês, no processo de preparação do III Congresso Latino-Americano e de Revitalização da Pastoral da Juventude, estamos apurando os nossos olhares para a diversidade juvenil em nosso continente. Também em relação à sexualidade, temos um mosaico de rostos juvenis que ultrapassam as lentes monocromáticas com as quais estamos acostumados (ou nos acostumaram) a olhar o mundo. A questão da homossexualidade, por exemplo, pouco surge em nossos grupos porque, no limite, não sabemos olhá-la fora da lente da heteronormatividade que organiza as relações em nossa sociedade contemporânea. Ainda, as relações de poder que envolve as questões de gênero, de modo especial o papel e lugar das mulheres na sociedade e nas Igrejas, muitas vezes caem na invisibilidade e, assim, contribuímos para perpetuar mecanismos de exclusão e violência.

            O avanço no entendimento de que o/a jovem elabora a sua identidade a partir de todos os aspectos que compõem a sua vida (afetivo, sexual, transcendente, político, social etc), como o feito pelas Pastorais da Juventude na América Latina, precisa estar combinado com um olhar novo, desnudado e atento para acolher a diversidade sexual.

            O desafio que, como agentes das Pastorais da Juventude, temos de dar conta é o de superar uma abordagem do tema da sexualidade apenas no campo das interdições das formas e jeitos diversos de viver a sexualidade para uma abordagem e prática pastoral que integre a sexualidade juvenil. Se compreendemos o papel da religião e a prática de vivência comunitária como importantes produtores de sentidos e constituição de identidades, cada vez mais é preciso avançar na compreensão integradora da experiência humana. E a sexualidade é uma experiência humana fundamental, assim como o reconhecimento da diversidade sexual é uma experiência fundamental para a sociedade e para o Reino de Deus.

 

            Questões para debate:

-        De que modo em nossos grupos estamos considerando as questões da sexualidade juvenil?

-        E quanto às relações de gênero?

-        Como nosso acompanhamento ao processo de educação na fé contempla essa dimensão da vida humana? O que mais é necessário?

-        Como observamos a vivência da sexualidade juvenil, enquanto dimensão integradora da experiência humana?

 

Vanessa Aparecida Araújo Correia

 

* Conceitos e ideias debatidas no Seminário Perspectivas de Juventude, em comemoração aos 10 anos do Curso de Especialização em Juventude no Mundo Contemporâneo. O tema foi apresentado na mesa Juventude, Diversidade Sexual e Gênero, com a participação de Beth Fernandes, da AGLBT; Vanildes Gonçalves, da Universidade Católica de Brasília e Casa da Juventude; Estevam Arantes, da Secretaria de Educação de Goiânia e Giovane Aparecido, ex-estudante da Pós-graduação em Juventude, do CEBI-SP. O Seminário aconteceu na Casa da Juventude, em Goiânia, entre os dias 14 e 16 de janeiro de 2010.

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